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Café e Tapas

Cafeína kink para leitores incautos

Freak on a leash

Quando você entra na graduação de Economia, normalmente o faz com todas as idéias erradas possíveis. Acha que vai (e nessa parte, está certo) estudar dinheiro, finanças, ativos, balança comercial, mas não para muito pra pensar no conceito que une tudo isso sob uma premissa muito maior: é a ciência de fazer escolhas. Nesse ponto, o binômio dinheiro-trabalho faz muito mais sentido, aliás, sendo firmes representações de o quanto se “pode” ou “não pode”, às escolhas feitas.

Há um esforço na economia atual de dissociar-se disso e se tornar uma ciência o mais exata possível. A “mais exata das humanas”, um professor meu batia ao peito pra falar. Macroeconomista de excelência. Tinha tudo a falar sobre as posições da política econômica e era um cara sensacional. Mas não me convenceu. Meu orientador seguia em outra direção, completamente oposta. Um microeconomista que via nas teorias de firmas, consumo e na teoria dos jogos toda a aplicação que se podia dar às cências econômicas na vida cotidiana. “Deixa o pessoal de macro com as suas previsões erradas, lá.”

E aqui estou eu, pesando uma cesta de consumo fictícia em que meu ganho de bem-estar equilibra-se entre o sabor (delicioso) e o ganho de performance da cafeína na caneca e o refluxo gástrico que isso me vem causando. É infeliz que economia e medicina se juntem pra me fazer ver que, sim, eu preciso tomar menos café. É a única tomada de decisão lógica, seja no médio ou no longo prazo. Seja qual a matriz de jogo eu monte, mentalmente, não há o que discutir com a médica. Não há por que discutir. Nem devo gastar meu tempo.

“Mas doutora, eu NÃO vou parar de tomar café!” – Eu sendo de humanas, afinal… o cientista pode seguir fazendo experimentos, mas em outras áreas.

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Muita gente que vem comentar que Economia é um tema difícil ou desinteressante, eu recomendo a abordagem dos Freakonomistas, fundada pelo professor Steven D. Levitt em parceria com o jornalista Stephen J. Dubner. O objetivo dos dois é resgatar essa ciência da tomada de decisão inclusive em experimentos sociais concretos (ainda que de metodologia questionável), partindo sempre de propostas absurdas, normalmente para questionar o senso-comum. Seus dois primeiros livros são bons demais, aliás.

Pontos nunca finais

Toda língua escrita tem seus toques elegantes. Sou apaixonado pela crase. Acho que é um acento, citando Guerra nas Estrelas, “de tempos mais civilizados.” Poderia fazer todo esse texto sobre ela (acho a pronúncia em à deliciosamente cortante, por exemplo), mas não é meu ponto, ao sentar aqui para escrever.

semicolon

O ponto-e-vírgula perdeu o hífen (nunca o teve? pesquisar…) mas não perdeu a elegância nem na canetada da reforma ortográfica. Pela definição, é uma pausa maior que a vírgula, mas menor que o ponto. É uma frase que podia ter acabado, mas transgride a forma e decide continuar. Formalmente, separa orações coordenadas, cria antíteses – “Muitos tentaram; poucos conseguem.” – disfarça-se de ponto final, mas promete continuidade e de forma tão sutil.

É nesse contexto que surgiu uma iniciativa muito legal, o Projeto Ponto e Vírgula (Semicolon, no original em inglês) com uma proposta muito simples: A história de ninguém merece um ponto final. Em tradução livre, da página inicial do projeto, é uma campanha de conscientização dedicada a dar esperança e inspirar esperança aqueles que lutam com a depressão, suicídio, vícios e auto-mutilação a buscar ajuda. Uma das iniciativas mais comuns e mais legais de apoio ao movimento está surgindo na pele das pessoas, em forma de tatuagens.

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Somos, afinal, uma sociedade que não permite fraquezas nem franquezas? Que não alcança a quem precisa em seus piores momentos? Não acho. Muito drástica explicação, favorita só pelo tamanho do drama. No entanto, acho sim que a maioria das vezes são pessoas que buscam qualquer sinal de apoio, para se abrirem. E nesse ponto, a iniciativa é esse tanto mais válida.

Toda forma de diálogo aberto a respeito é vital; muitos não buscam.

Poliamores e amoras – pt 2

Tenho uma confissão a fazer: eu adoro damasco. É azedo, é forte, vai muito bem pra balancear qualquer coisa doce demais. Não é incomum, afinal, gostar de damasco, mas por quê eu precisaria de damasco, quando achei a geléia de quatro “amoras”, da parte 1 deste post? Parece qualquer pergunta banal, mas não estamos falando de sobremesa, não é mesmo?

Faz nem tanto tempo que ouvi (uma vez mais) a pergunta curiosa: “Quanto é suficiente?” Penso em nenhuma resposta melhor do que “Um só. Eu mesmo.” Ainda que pareça, não sinto que respondo isso com qualquer gota de egocentrismo. Penso apenas que preciso me bastar, primeiro, antes de saber o que buscar no outro, quem quer que seja. (e quantos quer que sejam, na verdade) É um tanto utópico, mas e se realmente só for possível amar verdadeiramente quem lhe seja completamente desnecessário, mas você queira estar junto? Você realmente precisa achar A pessoa? Penso que antes deveria se achar no espelho.

Nesse contexto, o quê resta para buscar em outro(s)? Tudo. Adoro pessoas. Adoro conhecer pessoas. O diferente de mim, o ponto de vista a mais, a soma. (e todas as discussões que tantas diferenças causem) Em alguns tantos, isso vai implicar na amizade, longa ou passageira, mas e quando vem aquele a mais? Tanto se vê amor como subtração: Você “dar algo de si” implica em ser menos, logo após, como se fosse finito. Como se chegasse realmente a esse ponto “suficiente” e todo o resto fosse um você vazio. É toda a cultura de metades da laranja, tampas de panela e almas gêmeas. “Vai lá e acha UM no meio de 7 bilhões.” A chance de vocês dois falarem a mesma língua, aliás…

Onde há muito a se achar de afinidades, há sempre tanto mais a achar de diferenças. E isso é o complicado em qualquer relação. Descreve-se toda essa coisa de “alma gêmea” como alguém com quem se tem tanto em comum e esquece-se que incongruências são complementares, também. Não é nem um pouco fácil, ser diferente, óbvio, e se as inseguranças vão a mil por hora numa relação que tenta juntar duas cabeças, imaginemos três, quatro, tantas delas. Some-se as diferenças de gênero, quando há de se misturar na equação quantidades variáveis de H e de M.

Me considero bem mais pragmático em minhas relações sexuais e/ou amorosas que a maioria e gosto de me enganar que isso é maior vantagem do que desvantagem, mas sei também o quanto isso pode por vezes soar à frieza e causar inseguranças no outro. Falo de “maturidade emocional”, quando na verdade boa parte das vezes em que se envolve uma dessas duas palavras, a outra já deu tchau e pulou a janela. E se nem todas as vezes você vai saber lidar com outro e ruídos de comunicação surgirão, imagine com outros. Muito raramente isso vai envolver vivenciar essa experiência da mesma forma, igualzinho, com cada uma das outras pessoas. Diferente, porque o aquilo que te complementa em X muito provavelmente será totalmente diferente do que se soma em Y.

Então… seriam formas a mais de dar errado? Não necessariamente, são possivelmente as mesmas. O que muda é a potência. (matemática, mesmo) Por quê tentar? Porque mesmo sendo mais mentes tentando se encaixar, são também mais descobertas e é também maior o cuidado. Em mim, é o diferente, não só o novo, que fascina. Fosse apenas o novo, não haveria investimento emocional algum, nunca. Mas de vez em quando, há… e todo investimento, garante a economia, envolve riscos. E essa mesma ciência tem coisas boas a falar sobre riscos altos…

Um não é necessariamente pouco, mas dois pode ser bom e três só está aumentando as chances. (boas e ruins, afinal) Almas trigêmeas, quadrigêmeas, a mesma tampa da panela cobrindo o refogado na frigideira… o suco de laranja com graviola e maçã. Poliamoras na torrada, num domingo de manhã, com um bom café bem forte.

O bom das analogias é que eu não preciso parar, por receio de estar sendo julgado, não é mesmo?

poly

Poliamores e amoras – pt 1

Eu gosto de amoras. Em geleias, em bolinhos e coisas afins são uma delícia. Com um bom café, melhor ainda. Mas não tenho uma favorita, sabe? Blueberry, silvestres, vermelhas… pra minha sorte, sempre acho no mercado geleia de quatro frutas, que tem todas essas. (e morango) Boa demais. Talvez não desse muito certo, mas poderia ser chamada de Poliamoras, no rótulo. De repente as pesquisas de mercado não foram boas ou de repente sequer pensaram nesse nome. Mas aposto que ninguém pensou “mais que duas frutas no mesmo pote é uma aberração!” Pois é…

Foi ao ar no canal GNT o primeiro programa de uma série sobre novos modelos de relações, chamada Amores Livres. Acho que poucas vezes vi demonstrações e considerações tão sinceras, sobre poliamor, quanto nesse primeiro capítulo: Trisal. Sinceras porque muitas vezes tudo o que se vê ou lê a respeito segue a linha de “é tão maravilhoso, amar mais/se aceitar/aceitar o outro/sermos plenos/vivermos livres” e muito pouco se fala sobre o que pode haver de complicado, tanto na dinâmica da(s) relação(ões) quanto socialmente. E aqui vou focar a parte do social, mesmo.

A última vez que comentei o assunto em uma rede social, a resposta veio como uma pedrada: “é muito fácil falar de poliamor sendo homem”. E na esteira, uma série de links para textos feministas que, em resumo, incorriam em acusar movimentos e relações poliamorosas de criarem situações “homens sendo homens e mulheres obrigadas a aceitar”. Esse argumento tem tantos problemas… o mais grave deles sendo resumir poliamor a relações MHM (Mulher-Homem-Mulher). Existem muitas relações HMH, também – e até mesmo HHMH ou MHMM. Mas mais do que isso, ressalto que mesmo em muitos casos de MHM, as mulheres são sim empoderadas. E essa é a questão. O fundo de verdade desse argumento sendo que vivemos em uma sociedade com maior predisposição a julgar os Ms do que os Hs, dessas relações. O “homem sendo homem” acaba sendo uma idiossincrasia canhestra, porque logo em seguida vem “a mulher sendo a puta”, não é mesmo?

A questão social está no cerne de toda e qualquer relação e os pré-julgamentos vão ocorrer sempre. São todos adultos produtivos, vacinados, pagando seus impostos, então qual o problema? De verdade? É muita pretensão, do ponto de vista de um praticante e defensor do poliamor, argumentar que seja mera projeção: “Julgam porque queriam conseguir o mesmo.” Não, definitivamente não vai ser bom nem será uma meta para todos. E ser o incomum gera estigmas.

Converso sobre poly com muita gente que pergunta “como funciona?” como quem espera que eu comece a citar regras e termos e uma normatização que de algum jeito faça mais sentido, para ela. Essa é a boa reação: tentar entender. As más reações são bem mais diversas. Do “não está certo” até o “mas você não tem medo?”… Medo de quê, afinal? De que acabe? Relacionamentos começam e acabam todo o tempo. Casamentos, até. Os motivos podem ser tantos e todos os mesmos, inclusive. Ninguém se investe em uma relação sabendo que “logo ali acaba”. De quanto é esse prazo de validade e porque achar q será diferente do de qualquer relação monogâmica?

Vamos advogar para o diabo aqui e dar boa margem ao argumento “é machismo”. É bem preocupante, a quantidade de relações que se dizem livres mas em que um dos lados (normalmente o homem) limita o outro. “Nosso casamento é liberal, mas só se forem outras mulheres.” Cara, isso não é estilo de vida liberal, isso é fetiche. É um kink. Admita que você é um homem que de vez em quando curte sair com outras mulheres e/ou ver tua esposa com outras mulheres. Isso não é nem de longe incomum. Muitas vezes, denota ainda uma insegurança tremenda que remonta ao tradicionalíssimo casamento-posse.

No episódio de Amores Livres, ficou bem claro o quanto a pressão social recai com maior peso sobre as mulheres. As duas dão relatos bem sérios sobre dificuldades com seus familiares e amigos, quanto à aceitação de uma família pouco tradicional. A namorada do casal (não é um termo muito correto, aqui, mas ajuda o entendimento) ainda lida com o fato de que muitas vezes é vista como um elemento disruptor daquela relação antes supostamente tradicional. O homem menciona que as pessoas não discutem mais com ele porque o que apresenta são fatos, uma vida real, e essa é exatamente a minha postura. Mas a nós, há essa “permissão” de simplesmente falando da coisa quase friamente, estarmos aceitos. Até sermos admirados por isso. A parte maciça do julgamento, infelizmente, não pesa sobre o nosso gênero.

Mas do outro lado da moeda, dentro do estilo de vida poly, já ouvi que para ser realmente o ideal, é preciso que todas as partes da relação sejam bissexuais. Não, aparentemente há uma norma (alienante por si só) que se em uma relação HMH os dois Hs não fizerem sexo, um com o outro, é apenas uma mulher com dois homens e ponto. Pior. Isso denota que em qualquer relação MHM, o H é SIM o machista e “quer só um harém para si.” (como dito, acontece muito, mas nem acredito que mereça ser chamado poly) E se julgamentos endógenos (dentro do próprio meio poliamoroso) também existem, fica claro que não é só uma coisa de que “Julgam porque queriam conseguir o mesmo.”

O quanto, afinal, importa quantos e quais sabores tem a geleia, mais do que o paladar de quem vai comer a torrada? Zeus nos livre de parar pra pensar em quanta coisa, quando crianças, colocamos na boca que se denominavam tutti-frutti, não é mesmo?

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Entre o Preto e o Branco

Machismo. A palavra me incomoda um bocado e por diversos motivos. Já correndo o risco de irritar quem me leia, aqui, o principal deles é a facilidade com que ela é usada para justificar argumentos nem sempre tão “preto no branco”, assim. Mas somos uma sociedade maniqueísta, que gosta de polarizar questões, dessa forma, e com isso cobrar que uma pessoa (e TODA pessoa, aliás) esteja deste ou daquele lado. O fato é que não existem apenas dois lados. Toda questão social tem seus 2, 20, 50, 250 tons… os infinitos pontos da reta. E o quê isso tem a ver com o livro “50 Tons de Cinza”? Bem pouco, em não ser uma narrativa nada sutil, mas muito em contar uma história pra lá de machista.

Quem sou eu? Aqui e para este texto, eu sou Mestre Addam, um fetiche que descobri cedo, na minha vida sexual. Sim, ser esta persona é um fetiche meu, e dos mais prazerosos. Dominador, torturador sádico e mentor no uso de agulhas e facas em práticas eróticas. Machista? Sempre me pergunto isso e acho que não é algo que eu consiga responder, mas gosto de pensar que não. Que em toda mulher que já veio a mim para cenas e/ou relações sadomasoquistas havia o desejo consciente desse mesmo fetiche. Me apóio em um dos preceitos da prática de Bondage, Dominação e Sadomasoquismo (BDSM), de que o divisor de águas entre o fetiche e a violência doméstica é que toda prática seja Sã, Segura e Consensual. (SSC) O problema é que, como em meu primeiro parágrafo, são conceitos abstratos o suficiente para também entrarem na dança de que mero “’ser’ ou ‘não ser’” pode falhar em definir certo e errado: SSC ou não-SSC?

Sob esse ponto de vista, o título do livro vem então cheio de promessas, certo? São pelo menos 50 tons da coisa, que veremos em nuances delicadas, enquanto nos deixamos envolver por esses tantos desejos, sabores, sensações. Críticos e fãs dizem que é uma obra que vem desnudar e escancarar os segredos de toda mulher, com suas fantasias. Mas se for acreditar nisso, é ainda mais preocupante.

Temos uma protagonista, jovem adulta chamada Anastasia (pelo simples motivo que os editores disseram à autora que ela não poderia publicar como no texto original, em que ela se chamava Bela), que na realidade só é maior de idade em seu RG, mas com a clara mentalidade de adolescente deslumbrada de 16 anos. Ela é uma mulher certa de suas convicções. Do outro lado, Christian Grey (que, da mesma forma, os editores deixaram claro não podia mais se chamar Edward) é um homem bonito, com aquele desdém altivo que uma adolescente de 16 anos acha o máximo em seus ícones pop e, muito importante à trama, rico. No entanto, Christian é parte de uma subcultura perigosa – e atraente – de sadomasoquistas (porque os editores nem precisaram dizer que a autora precisava mudar a parte “vampiros”, da coisa).

Sim, o texto surgiu como uma fanfic erótica de Crepúsculo, mas essa não é sua pior característica. Releia o parágrafo anterior e você verá que eu coloquei a importância da riqueza do galã acima de sua característica fetichista. Ana, a protagonista de fortes princípios e toda sua certeza adolescente do que quer da vida, claramente rejeita os fetiches de seu “príncipe encantado”. A princípio. Mas Christian sabe bem ‘comprar’ a consensualidade da parceira, ao longo de uma história que nem tenta esconder seus tons (!!!) de material girl – Madonna, excelente para a trilha sonora do filme, hein! –, demorando-se em detalhar e descrever marcas e patentes de todos os presentes que a aos-poucos-submissa Ana vai ganhando de seu cada-vez-mais-Mestre Grey.

Méritos? Vários, no entanto. O livro sucede bem em trazer à luz práticas tão tabus quanto interessantes, ainda que claramente não seja essa sua intenção. A aceitação do fetiche é talvez seu maior ganho, ainda que (ao menos o primeiro volume) encoste apenas na casca de uma gama de práticas possíveis. Resume BDSM a bem pouco, sem deixar sombras o suficiente para que leitores vislumbrem o universo de outras possibilidades, em sua própria imaginação. Apresenta a ritualística por trás da relação Dominador/submisso (D/s), um interessante movimento de tentar ordenar o caos de sensações e desejos que envolvem a interação entre Top e bottom (termos genéricos, facilitando a identificação de papéis sem distinção de gênero, das partes), presente na forma de um contrato entre as duas personagens – o qual Ana recusa-se a assinar, claro.

Em relações D/s, a questão contratual é importante no sentido em que não há consensualidade sem que ambas as partes possam estabelecer seus limites – bem como a disponibilidade a testá-los ou estendê-los. Não é algo que necessariamente esteja colocado em papel e tinta (embora possa ser parte da diversão, estar), mas cabe ao Top explorar essas barreiras e dar ao bottom a segurança de que serão respeitadas. A existência de uma palavra (ou gesto) de segurança, estabelecida como “freio de mão” a qualquer cena ou prática é normalmente o que mantém essa noção do ato consensual, não importa o fetiche sendo explorado.

Portanto, é quase correto dizer que “o poder está nas mãos da submissa”. Uma premissa muito lógica, com todo o exposto aqui, e uma percepção que o livro arremessa janela afora, com a “consensualidade comprada” de Anastasia. Sua submissão física e psicológica a seu Dono está claramente condicionada ao deslumbre causado pela condição financeira do mesmo e a uma horrível ligação disso com a noção romântica de amor. Críticos da obra dizem que o problema do livro está em uma mulher ceder a posição de igualdade com seu parceiro, na cama. Digo que é bem pior, em que ela cede a sutil superioridade que as fantasias de uma submissa têm sobre os desejos últimos de seu Mestre.

Não defendo aqui que o Top seja estritamente dominado pelos limites de um bottom, mas que é o seu maior desafio moldar sensações e desejos da pessoa submetida aos seus prazeres, criando a sensação da perda de liberdade. Seja usando de vendas, algemas e mordaças ou da vigilância quase opressiva de um olho de poder foucaultiano. (em um aspecto bem mais psicológico do ato da dominação) É delicioso – e me permito o deslize analítico, aqui, por que é mesmo! – ver o comportamento e a postura da pessoa dominada ir mudando, à mera presença de uma figura que lhe chega cheia de regras, vontades e exigências, sem que essa sequer pronuncie a primeira palavra. Mas por que isso é parte de um fetiche, um contrato entre os dois. Qualquer dependência inerente a essa relação precisa estar ligada à adrenalina, ao prazer, ao desejo (até mesmo da dor), à afinidade entre as partes.

No primeiro volume da trilogia de 50 Tons, o contrato toma tons de negócios, meramente. Grey com seu dinheiro (e todo o glamour que ele traz), Ana com seu amor. Condicionar o fetiche a qualquer dessas duas coisas é, para mim, o principal desserviço do livro a seus leitores. Ver surgir, em meio aos seus fãs, frases como “sem amor e romance, BDSM não passa de violência doméstica”. Não é preciso haver amor, para que haja o sentimento (mesmo meramente teatral) de posse, mas, principalmente, não é preciso haver posse para que haja amor. O fetiche da posse do outro, a excitação sexual com esse pertencimento, é até muito mais saudável que a assumpção formal dessa mesma posse por causa de qualquer papel assinado em cartório.

Sinceramente, falho em ver qualquer tom de são, seguro ou consensual em muitos casamentos e relacionamentos tradicionais, por aí. Mas ir além de apenas 2 ou mesmo de 50 tons da coisa pode mostrar toda uma dissonância (e distância) necessária, entre amor e sexo.

– Texto publicado no blog Biscate Social Clube, em 09/12/2012

Sexo: Direitos e deveres

Direitos
– Fazer o que quiser (vide cláusula “deveres”, abaixo) com o seu corpo no de outra(s) pessoa(s), independente de gênero, religião ou “o que vão pensar”;
– Comunicar ao(s) outro(s) seus anseios e desejos, seja por gemidos, suspiros, gritos, gestos, olhares, tremores… ou até mesmo palavras;
– Ser o sexo mais que apenas a penetração ou mesmo considerá-la desnecessária ao ato;
– Vontades, brincadeiras, fetiches, unhada, mordida, dedada, linguada, tapas, inserção de objetos, puxadas de cabelo (vide cláusula “deveres”, abaixo)… até mesmo penetração, sem julgamentos;
– Quando pelo menos uma das partes for do gênero masculino, não achar que acaba na ejaculação, para nenhum dos envolvidos;
– Beijar onde quiser, como quiser, sempre que quiser, antes, durante e depois, sem “nojinhos” ou tantos pudores o quanto puder deixar de lado (era teu antes de você sair escorrendo/espalhando no outro, ora essa!);
– Gozar, gozar muito, sempre que possível, sem no entanto ter nisso qualquer tipo de obrigação, para nenhuma das partes.

Deveres
– São: prezar pela sanidade física e psicológica de si e do(s) outro(s) (observando as devidas precauções fisiológicas, principalmente);
– Seguro: prezar pela integridade física e psicológica de si e do(s) outro(s) (e aqui, em ressalva, a importância de se observar leis e regulamentos formais quanto a faixas etárias, local do ato e uso de substâncias);
– Consensual: ter e dar ao(s) outro(s) a opção de querer ou não iniciar e/ou MANTER o ato sexual, ao longo toda a sua duração. Direitos (sim, todos os acima) não são, afinal, obrigações. Qualquer dúvida sobre consensualidade, favor consultar referência abaixo:

Elevator action

Momento: algum fim de tarde em julho.

Parei no quarto andar. Observava o relógio lendo notificações do celular.

Desce? Sim, moça. Eu respondia, porque aparentemente a seta do painel era informação fria demais para ser de confiança. Ajeitava as mangas do blazer, ao sentir que as alças da mochila as haviam “encurtado”, antes de sair do escritório. Já dentro do elevador, uma mão incerta fazia menção de buscar algum botão a apertar por meio segundo, antes de desistir. Perguntei se buscava a portaria.

Sim. Eu apertava o “A”, se de Átrio ou Acesso não faço ideia, mas era da portaria. Obrigada… A voz se acanhava e eu sequer tinha tempo de buscar o celular ao bolso, pra disfarçar que notara o desconforto. O quê significam “S1” e “S2”? Respondia que era pra garagem, sem me delongar em falar de Subsolo, por que agora estava me ocupando em notar a pessoa.

A pele bem morena, os cabelos negros e compridos, descendo em ondas até emoldurarem um decote interessante, não vulgar, numa blusa de um azul bem escuro. Os olhos verdes e lábios cheios, o quão naturais o batom claro sem brilho os permitia serem. Uma beleza mais interessante do que convencional. As calças de um azul bem mais forte, como de caneta. Era justo, já que desenhavam belas pernas e quadris largos. Saltos baixos, discretos, negros.

Que bom que você tava aqui, ou eu me perderia… Ah, arrisca perder-se bem mais, moça! Não faz ideia. Aceita ir comigo tomar um café? Fica aqui até o misterioso “S2”, vamos. Conheço um lugar ótimo, perto. De carro, nem 3 minutos. Toma, meu cartão. Um louco perigoso não te daria o cartão de visitas. Quê me diz, então? É só um café… ainda que teu tipo físico seja ótimo para cordas. Mas a gente conversa isso melhor. Vamos? Se estiver ocupada, anota meu telefone. Não tenho caneta. Me dá o teu aqui, anoto no celular. Mas se não estiver ocupada…

Foi sorte mesmo eu estar aqui. Mais sorte ainda você entrar. Mas tchau, moça. Chegamos no “A”. Boa noite. E me olha até que a porta do elevador fecha. Olho naqueles olhos verdes e sorrio.

… sem camisinhas à mão, moça.

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