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Café e Tapas

Cafeína kink para leitores incautos

mês

setembro 2015

Pia de louça

No fundo, é essa a real diferença.

Talvez você entendesse, se culturalmente tivesse parte do papel na casa. Se fosse sua uma tarefa apenas.

“Tu é foda, hein cara!” “Deve ser muito maneiro!” “Pô, se deu bem hein!” Sim, essa última frase, talvez. Mas sua admiração, no fundo, ignora que na verdade o que eu tenho é muita sorte. Estas frases normalmente partem só de uma espécie de auto-afirmação do gênero e reforçam um mundo de preconceitos. Pior de tudo, me tornam idiossincraticamente machista, junto com você.

Não é por mal, tenho certeza. Mas não quer dizer q o comportamento não mereça muito a se repensar. Da minha parte, a dificuldade é apontar onde, de verdade, é diferente… Mas se quero um bom ponto de partida, acho que encontrei.

São três pratos, na pia. Na verdade, três de tudo. Três pratos, três copos… Garfos, facas… Me dei conta por acaso. Por que perceber isso me fez sorrir.

Você talvez não entenda, ainda… Mas bem pode começar chegando em casa e lavando a louça.

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Se toca!

É bem isso aí do título.

Todo mundo numa de dar opinião, de ter tanta certeza de como viver/pensar/existir e ninguém se toca. É tanto fiscal da vida (e da foda) alheia que parece que realmente tá tudo bem pra todo mundo. Nada dá errado logo ali, para a tropa do senso comum. O que “sempre foi assim” é esse dogma inviolável, fabuloso. E só me parece que falta algo… e que esse algo é de um potencial TÃO libertador.

Sem querer, disparei uma saudação das antigas: “Que teus filhos tenham um pai rico e mãe maravilhosa.” Fazia um tempo que não soltava essa piada e por isso mesmo, nunca a tinha avaliado pelo quão normativa é. Me coloquei a pensar em qual seria a forma mais moderna de dizer isso. “Que teus filhos tenham pai(s)/mãe(s) rico(s) e mãe(s)/pai(s) maravilhosas(os/xs)?” Mas e quem não quer ter filhos? “Ah, sei lá… que você seja muito feliz com quaisquer escolhas que faça e não minem a felicidade alheia!” Ficou complicado, né?

Então pensei q podia dizer “Se toca!” Por que se muito do problema é falta de sexo (sim, aquele “algo libertador” ali de cima), é claro que a masturbação será parte da solução. Além de haver um desejo genuíno de bem estar, nessa frase tão simplória. Por quê, afinal, o corpo é um tabu tão grande? O PRÓPRIO corpo! Qual o sentido em se haver de regular as sensações que se pode trazer a si mesmo – e, por conseqüência, causar ao outro?

Se conheça. O quanto puder. Tudo o que puder, de pele e suor e mente. Tudo o que te excita precisa estar em você, mais que no outro. Tanto se fala de falta de comunicação, mas qual a qualidade da informação que você tem a passar?

Vai lá… se toca.

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Vamos falar de compersão?

De onde vem o ciúmes? Muito se fala sobre como ele faz parte da saúde de uma relação afetiva, a menos que se torne excessivo. É a premissa de que, em um suposto grau normal, “é bonitinho/carinhoso”, “é um cuidado com o outro”, “é uma expressão do amor”. Só quando é sufocante e limitante que é um problema, afinal. Doença, quase.

Pra mim, é posse, insegurança e ego, tudo junto. Posse em algo que emana de si e se impõe ao outro: o ciúmes é uma ferramenta nada consensual e nem sempre tão sutil, de controle. Insegurança naquilo que emana do outro para você: o ciúmes pode sim ser gerado e alimentado pelo receptor, em suas atitudes e sua postura. Ego em ambos: quem o demonstra se acha merecedor de tudo do outro, quem o recebe se sente importante e necessário. Acho que é sempre limitante e sempre sufocante.

Pior: tradicionalmente, é normal o homem senti-lo. É histeria da mulher fazê-lo. E pouca coisa demonstra tão bem que seja uma ferramenta de controle, afinal.

Detesto escrever essas coisas deixando soar que seja mero observador, olhando o mundo de cima do “asteróide poliamor”. Não apenas por ser pretensioso demais, mas por que todo autor é, atrás das teclas, gente, carne e um mundo de defeitos. Ciúmes é algo que por vezes deixei me transformar em algo que hoje espero conseguir sempre conter. Como? Todo hábito parte de esforço consciente, esse não é diferente. Lembrar sempre que nada é dado sem o devido merecimento e, mais importante, todo gesto é soma, não subtração. Dar de si não significa ter menos, logo ali.

É daí, acho, que parte a compersão. A expressão (compersion) foi cunhada por poliamoristas americanos para descrever uma sensação de bem-estar gerada pela felicidade de quem se ama. É muito associada ao prazer sexual do parceiro com outras pessoas, mas vai além. Sexo grupal e poligamia já têm essa vertente de muito antes, mas normalmente indissociada da questão sentimental. Muitas vezes, a definição dada é “o contrário do ciúmes” e isso por si só soa de uma pretensão imensa. Pensando em “posse, insegurança e ego”, no entanto, acho que realmente soluciona a primeira dessas três coisas (e talvez somente ela).

Para muitas pessoas, soa falso, teatral, como se fosse impossível admirar o prazer alheio a esse ponto, de ter prazer em si. Mas há sim uma beleza na plenitude dos desejos. Se duas pessoas conseguem ser assim plenas, uma para a outra, sem sua própria dose de teatralidade, palmas para ambas. Admirável. Mas ainda acho uma responsabilidade um tanto pesada, ser O TUDO do outro. E mais do que isso, bastante improvável que esse raro fenômeno ocorra em mão dupla.

Um argumento comum contra a compersão é de que “não é tão fácil dividir”. Não mesmo. Então que tal parar de pensar em subtração (e conseqüente divisão) e trocar isso para a soma (logo, multiplicação)? Sem a responsabilidade de ser TUDO, você aprende a tentar sempre ser MAIS. A pretensão aqui é fazer soar evolutivo, de certa forma, aceitar esse sentimento. Mas o fato é que ele existe, em muitas pessoas.

Poligamia, poliamor e até voyeurismo trazem uma carga mais óbvia, disso. Mas consegue lembrar de alguma vez que você mostrou a alguém que amava algo novo e surpreendente e viu na pessoa aquele brilho no olhar? Aquele sorriso incontido? Seja uma música, um livro, um filme, uma paisagem… ali, você entendia que estava somando. Esse é um prazer que você cedeu, mais do que deu, por que mesmo sem você aquilo permanecerá. E pelo mero fato de não ter uma figura humana, você aceita… com talvez só um pouquinho de ciúmes.

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