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Café e Tapas

Cafeína kink para leitores incautos

mês

agosto 2015

Kamikazes…

“Eu só sou responsável pelo que falo, não pelo que você entende!”

Errado. Pra caralho. É fácil demais dizer as coisas certas da forma errada, no momento errado, com a entonação errada e, principalmente, com intenções egoístas. Dizer o certo só pra ser quem disse ou reitera o certo, sem que isso em nada acrescente a quem ouve, mas enaltecendo sempre o locutor.

Esse é um pecado muito meu, na verdade, e é estarrecedor o quanto eu sei que o faço de propósito, tantas vezes. Mas não estou aqui pra falar de provocações e sim de detalhes. O que se diz nem de perto importa tanto quanto como se diz. É o que se situa na distância entre intenção e gesto, tudo aquilo que faz parte do dizer e o que cada coisa comunica.

Você se treina, de verdade, às melhores formas de passar a mensagem? “Não! Eu sou autêntico!” Ou talvez você apenas seja rude, mal educado(a), desatencioso(a)… Tudo comunica, afinal. Principalmente algo que se faça/fale/demonstre para em seguida esperar retorno. Ação X Reação não quer dizer que se terá o esperado, ao final da equação. E querer diferente é negar a liberdade do outro.

Então pense somente em fazer o SEU melhor, que tal? Provável que nem todo mundo mereça o esforço, mas como você vai saber quem é quem se nem começar direito? Você não está “se guardando”, está se podando. Muitas vezes, por motivos também culturais, um recatamento tão lugar-comum. Perceba, a mesma diferença entre o que se diz e como se diz está refletida na dicotomia do quem se é e quem se mostra. E quem se é, sempre é tão falho…

Faz o seguinte? Se edita. Não pra disfarçar e mentir, mas pra ser de uma verdade mais agradável. Não pra esconder e poupar, mas pra ser aquela sombra de curiosidade, como nas cortesãs que buscavam a meia-luz perto das cortinas. Deixa todo o resto pra quando se despir e as palavras nem forem mais importantes.

Mas até lá, por muitos momentos, seja sim o melhor e mais intenso que puder ser. Se não no dito, no olhar. Se não no olhar, no toque. Leve todo o tempo que precisar, se não souber ser breve. E se algum tempo parecer tempo demais, saiba: está fazendo errado. É preciso tempo pra se fazer direito.

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 foto de wphotography

Perfection?

Nada é mais triste que a morte da ilusão. [Guilt Machine]

Não me venha com perfeições, porque eu mesmo sou tosco e falho e rachado e imperfeito e, estranhamente, feliz assim. Não vem sendo sem defeitos nem intocável nem celestial pra cima de mim, pois só com palavras é muito fácil, aí vem a pele e arrisca estragar tudo. Vem presença lembrar que você respira, sua, dói… e é TÃO importante, o suor, a dor, o fôlego!

É difícil, não querer ser ideal, não aproveitar o anonimato da tela pra virar construto do que o outro lado espera. Mas se vier me encontrar, traz tua marreta, se arma do teu pior e me quebra. Sem medo. Porque eu decididamente vou querer fazer o mesmo. Descobrir o que pulsa por baixo, afinal. Quê me diz de cairmos juntos do pedestal, só pra testar se não temos mesmo asas?

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Porque pesar o tempo todo tudo o que te digo contra o que realmente sou? Por quê te disse diferente, em algum momento? Vai ver a gente se moldou, aproveitando que um dia disseram que fomos barro. Nos pintamos mil cores em clara síndrome camaleônica, busca fútil por aceitação. Quando no fundo sempre fomos nossos hiatos, nos definindo pelo que não mostramos, escondidos em nossas próprias sombras.

Tudo isso aqui pode estar errado. Mas não vem não, ser perfeito, me jogar na cara tuas certezas, tua vida de “sempre certo” que parece me dizer que estou sempre errado. Desse jeito, tão ídolo grego, arrisca ver no espelho verdades tão minhas e ficar humano, brincando nos meus tantos erros. Sem me ceder um acerto teu, que seja. Como ousa?

Quem se diz muito perfeito na certa encontrou um jeito insosso, pra não ser de carne e osso.
[Zélia Duncan]

  • post 100% musical, em começo e fim dissonantes.

Não seria a moda ser feliz, afinal?

“Fulano disse que isso aqui é modinha.”

A mente dispara em conclusões mil, é reflexo involuntário. Ela nunca cala. E aí você vai pisando no freio (lembrar de instalar ABS, nota mental) pra começar por descartar toda e qualquer conclusão apressada que lhe ferva o sangue… pra ver, afinal, quais dados talvez suportem a afirmativa que passou tamanho julgamento (e umas dezenas de preconceitos) de forma tão frívola. Sim, esse post sai em defesa de “modismos”, algo raro saindo deste que vos escreve.

Não importa o contexto, se está na moda, é agradável a uma parcela razoável das pessoas. Há uma tendência forte demais em supervalorizar os “formadores de opinião” e a mídia como criadora e destruidora de ícones. A internet deixou isso bem claro, em fazer com que até esses “exemplares” muitas vezes caiam na obscuridade junto com seus exemplos. Manter-se relevante ciclo após ciclo de memes, canais, blogs, reposts e afins tornou-se uma questão de abraçar a novidade de forma quase presciente. Fazer parecer que você É a novidade.

O novo formador de opinião é um surfista de idéias, dependendo mais da onda do que dele mesmo, para manter-se em cima da prancha. Perde o impulso em algumas, sobe em outras. Meio por isso, acredito, a velha mídia impressa chega tão tardia à linguagem hipertexto de forma eficiente. (mas não muito atrás da indústria fonográfica, não é? as duas estavam sem fôlego, já) O planejador e manipulador atrás das palavras impressas não pode se comportar igual, quando está em uma tela. Provavelmente, aquilo sobre o que ele estava escrevendo já passou, antes do ponto final.

Mas e a moda? Ela está no meme, no canal de vídeos com milhão de seguidores, na série de livros não tão BDSM, no programa de televisão que (li num tweet) “faz a pessoa se sentir a mais ciumenta e possessiva da face da Terra”? Não. Ela está em todos os comportamentos que essas mídias retratam, no entanto. Está claramente explícita na outra ponta do confrontamento do senhor idoso que, indignado com o mundo que encontrou ao sair de casa, gritou “Só tem bicha nessa cidade?” e foi autuado por desacato, além de discriminação sexual.

Comecei este post por que depois de pisar no meu freio mental e descartar as conclusões mais imediatas, fiquei na pergunta “Mas ser feliz precisa estar na moda?” E se a primeira resposta pereceu ser “Deveria”, fico com uma melhor: Se é modinha, deixa ser modinha. Muita gente tá feliz assim. E quem julgou tão apressadamente a felicidade alheia, é triste perceber o quanto se parece com o senhor idoso do parágrafo anterior.

  • O amor é a única coisa que nunca sai de moda. [Carrie Bradshaw]

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Freak on a leash

Quando você entra na graduação de Economia, normalmente o faz com todas as idéias erradas possíveis. Acha que vai (e nessa parte, está certo) estudar dinheiro, finanças, ativos, balança comercial, mas não para muito pra pensar no conceito que une tudo isso sob uma premissa muito maior: é a ciência de fazer escolhas. Nesse ponto, o binômio dinheiro-trabalho faz muito mais sentido, aliás, sendo firmes representações de o quanto se “pode” ou “não pode”, às escolhas feitas.

Há um esforço na economia atual de dissociar-se disso e se tornar uma ciência o mais exata possível. A “mais exata das humanas”, um professor meu batia ao peito pra falar. Macroeconomista de excelência. Tinha tudo a falar sobre as posições da política econômica e era um cara sensacional. Mas não me convenceu. Meu orientador seguia em outra direção, completamente oposta. Um microeconomista que via nas teorias de firmas, consumo e na teoria dos jogos toda a aplicação que se podia dar às cências econômicas na vida cotidiana. “Deixa o pessoal de macro com as suas previsões erradas, lá.”

E aqui estou eu, pesando uma cesta de consumo fictícia em que meu ganho de bem-estar equilibra-se entre o sabor (delicioso) e o ganho de performance da cafeína na caneca e o refluxo gástrico que isso me vem causando. É infeliz que economia e medicina se juntem pra me fazer ver que, sim, eu preciso tomar menos café. É a única tomada de decisão lógica, seja no médio ou no longo prazo. Seja qual a matriz de jogo eu monte, mentalmente, não há o que discutir com a médica. Não há por que discutir. Nem devo gastar meu tempo.

“Mas doutora, eu NÃO vou parar de tomar café!” – Eu sendo de humanas, afinal… o cientista pode seguir fazendo experimentos, mas em outras áreas.

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Muita gente que vem comentar que Economia é um tema difícil ou desinteressante, eu recomendo a abordagem dos Freakonomistas, fundada pelo professor Steven D. Levitt em parceria com o jornalista Stephen J. Dubner. O objetivo dos dois é resgatar essa ciência da tomada de decisão inclusive em experimentos sociais concretos (ainda que de metodologia questionável), partindo sempre de propostas absurdas, normalmente para questionar o senso-comum. Seus dois primeiros livros são bons demais, aliás.

Pontos nunca finais

Toda língua escrita tem seus toques elegantes. Sou apaixonado pela crase. Acho que é um acento, citando Guerra nas Estrelas, “de tempos mais civilizados.” Poderia fazer todo esse texto sobre ela (acho a pronúncia em à deliciosamente cortante, por exemplo), mas não é meu ponto, ao sentar aqui para escrever.

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O ponto-e-vírgula perdeu o hífen (nunca o teve? pesquisar…) mas não perdeu a elegância nem na canetada da reforma ortográfica. Pela definição, é uma pausa maior que a vírgula, mas menor que o ponto. É uma frase que podia ter acabado, mas transgride a forma e decide continuar. Formalmente, separa orações coordenadas, cria antíteses – “Muitos tentaram; poucos conseguem.” – disfarça-se de ponto final, mas promete continuidade e de forma tão sutil.

É nesse contexto que surgiu uma iniciativa muito legal, o Projeto Ponto e Vírgula (Semicolon, no original em inglês) com uma proposta muito simples: A história de ninguém merece um ponto final. Em tradução livre, da página inicial do projeto, é uma campanha de conscientização dedicada a dar esperança e inspirar esperança aqueles que lutam com a depressão, suicídio, vícios e auto-mutilação a buscar ajuda. Uma das iniciativas mais comuns e mais legais de apoio ao movimento está surgindo na pele das pessoas, em forma de tatuagens.

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Somos, afinal, uma sociedade que não permite fraquezas nem franquezas? Que não alcança a quem precisa em seus piores momentos? Não acho. Muito drástica explicação, favorita só pelo tamanho do drama. No entanto, acho sim que a maioria das vezes são pessoas que buscam qualquer sinal de apoio, para se abrirem. E nesse ponto, a iniciativa é esse tanto mais válida.

Toda forma de diálogo aberto a respeito é vital; muitos não buscam.

Poliamores e amoras – pt 2

Tenho uma confissão a fazer: eu adoro damasco. É azedo, é forte, vai muito bem pra balancear qualquer coisa doce demais. Não é incomum, afinal, gostar de damasco, mas por quê eu precisaria de damasco, quando achei a geléia de quatro “amoras”, da parte 1 deste post? Parece qualquer pergunta banal, mas não estamos falando de sobremesa, não é mesmo?

Faz nem tanto tempo que ouvi (uma vez mais) a pergunta curiosa: “Quanto é suficiente?” Penso em nenhuma resposta melhor do que “Um só. Eu mesmo.” Ainda que pareça, não sinto que respondo isso com qualquer gota de egocentrismo. Penso apenas que preciso me bastar, primeiro, antes de saber o que buscar no outro, quem quer que seja. (e quantos quer que sejam, na verdade) É um tanto utópico, mas e se realmente só for possível amar verdadeiramente quem lhe seja completamente desnecessário, mas você queira estar junto? Você realmente precisa achar A pessoa? Penso que antes deveria se achar no espelho.

Nesse contexto, o quê resta para buscar em outro(s)? Tudo. Adoro pessoas. Adoro conhecer pessoas. O diferente de mim, o ponto de vista a mais, a soma. (e todas as discussões que tantas diferenças causem) Em alguns tantos, isso vai implicar na amizade, longa ou passageira, mas e quando vem aquele a mais? Tanto se vê amor como subtração: Você “dar algo de si” implica em ser menos, logo após, como se fosse finito. Como se chegasse realmente a esse ponto “suficiente” e todo o resto fosse um você vazio. É toda a cultura de metades da laranja, tampas de panela e almas gêmeas. “Vai lá e acha UM no meio de 7 bilhões.” A chance de vocês dois falarem a mesma língua, aliás…

Onde há muito a se achar de afinidades, há sempre tanto mais a achar de diferenças. E isso é o complicado em qualquer relação. Descreve-se toda essa coisa de “alma gêmea” como alguém com quem se tem tanto em comum e esquece-se que incongruências são complementares, também. Não é nem um pouco fácil, ser diferente, óbvio, e se as inseguranças vão a mil por hora numa relação que tenta juntar duas cabeças, imaginemos três, quatro, tantas delas. Some-se as diferenças de gênero, quando há de se misturar na equação quantidades variáveis de H e de M.

Me considero bem mais pragmático em minhas relações sexuais e/ou amorosas que a maioria e gosto de me enganar que isso é maior vantagem do que desvantagem, mas sei também o quanto isso pode por vezes soar à frieza e causar inseguranças no outro. Falo de “maturidade emocional”, quando na verdade boa parte das vezes em que se envolve uma dessas duas palavras, a outra já deu tchau e pulou a janela. E se nem todas as vezes você vai saber lidar com outro e ruídos de comunicação surgirão, imagine com outros. Muito raramente isso vai envolver vivenciar essa experiência da mesma forma, igualzinho, com cada uma das outras pessoas. Diferente, porque o aquilo que te complementa em X muito provavelmente será totalmente diferente do que se soma em Y.

Então… seriam formas a mais de dar errado? Não necessariamente, são possivelmente as mesmas. O que muda é a potência. (matemática, mesmo) Por quê tentar? Porque mesmo sendo mais mentes tentando se encaixar, são também mais descobertas e é também maior o cuidado. Em mim, é o diferente, não só o novo, que fascina. Fosse apenas o novo, não haveria investimento emocional algum, nunca. Mas de vez em quando, há… e todo investimento, garante a economia, envolve riscos. E essa mesma ciência tem coisas boas a falar sobre riscos altos…

Um não é necessariamente pouco, mas dois pode ser bom e três só está aumentando as chances. (boas e ruins, afinal) Almas trigêmeas, quadrigêmeas, a mesma tampa da panela cobrindo o refogado na frigideira… o suco de laranja com graviola e maçã. Poliamoras na torrada, num domingo de manhã, com um bom café bem forte.

O bom das analogias é que eu não preciso parar, por receio de estar sendo julgado, não é mesmo?

poly

Poliamores e amoras – pt 1

Eu gosto de amoras. Em geleias, em bolinhos e coisas afins são uma delícia. Com um bom café, melhor ainda. Mas não tenho uma favorita, sabe? Blueberry, silvestres, vermelhas… pra minha sorte, sempre acho no mercado geleia de quatro frutas, que tem todas essas. (e morango) Boa demais. Talvez não desse muito certo, mas poderia ser chamada de Poliamoras, no rótulo. De repente as pesquisas de mercado não foram boas ou de repente sequer pensaram nesse nome. Mas aposto que ninguém pensou “mais que duas frutas no mesmo pote é uma aberração!” Pois é…

Foi ao ar no canal GNT o primeiro programa de uma série sobre novos modelos de relações, chamada Amores Livres. Acho que poucas vezes vi demonstrações e considerações tão sinceras, sobre poliamor, quanto nesse primeiro capítulo: Trisal. Sinceras porque muitas vezes tudo o que se vê ou lê a respeito segue a linha de “é tão maravilhoso, amar mais/se aceitar/aceitar o outro/sermos plenos/vivermos livres” e muito pouco se fala sobre o que pode haver de complicado, tanto na dinâmica da(s) relação(ões) quanto socialmente. E aqui vou focar a parte do social, mesmo.

A última vez que comentei o assunto em uma rede social, a resposta veio como uma pedrada: “é muito fácil falar de poliamor sendo homem”. E na esteira, uma série de links para textos feministas que, em resumo, incorriam em acusar movimentos e relações poliamorosas de criarem situações “homens sendo homens e mulheres obrigadas a aceitar”. Esse argumento tem tantos problemas… o mais grave deles sendo resumir poliamor a relações MHM (Mulher-Homem-Mulher). Existem muitas relações HMH, também – e até mesmo HHMH ou MHMM. Mas mais do que isso, ressalto que mesmo em muitos casos de MHM, as mulheres são sim empoderadas. E essa é a questão. O fundo de verdade desse argumento sendo que vivemos em uma sociedade com maior predisposição a julgar os Ms do que os Hs, dessas relações. O “homem sendo homem” acaba sendo uma idiossincrasia canhestra, porque logo em seguida vem “a mulher sendo a puta”, não é mesmo?

A questão social está no cerne de toda e qualquer relação e os pré-julgamentos vão ocorrer sempre. São todos adultos produtivos, vacinados, pagando seus impostos, então qual o problema? De verdade? É muita pretensão, do ponto de vista de um praticante e defensor do poliamor, argumentar que seja mera projeção: “Julgam porque queriam conseguir o mesmo.” Não, definitivamente não vai ser bom nem será uma meta para todos. E ser o incomum gera estigmas.

Converso sobre poly com muita gente que pergunta “como funciona?” como quem espera que eu comece a citar regras e termos e uma normatização que de algum jeito faça mais sentido, para ela. Essa é a boa reação: tentar entender. As más reações são bem mais diversas. Do “não está certo” até o “mas você não tem medo?”… Medo de quê, afinal? De que acabe? Relacionamentos começam e acabam todo o tempo. Casamentos, até. Os motivos podem ser tantos e todos os mesmos, inclusive. Ninguém se investe em uma relação sabendo que “logo ali acaba”. De quanto é esse prazo de validade e porque achar q será diferente do de qualquer relação monogâmica?

Vamos advogar para o diabo aqui e dar boa margem ao argumento “é machismo”. É bem preocupante, a quantidade de relações que se dizem livres mas em que um dos lados (normalmente o homem) limita o outro. “Nosso casamento é liberal, mas só se forem outras mulheres.” Cara, isso não é estilo de vida liberal, isso é fetiche. É um kink. Admita que você é um homem que de vez em quando curte sair com outras mulheres e/ou ver tua esposa com outras mulheres. Isso não é nem de longe incomum. Muitas vezes, denota ainda uma insegurança tremenda que remonta ao tradicionalíssimo casamento-posse.

No episódio de Amores Livres, ficou bem claro o quanto a pressão social recai com maior peso sobre as mulheres. As duas dão relatos bem sérios sobre dificuldades com seus familiares e amigos, quanto à aceitação de uma família pouco tradicional. A namorada do casal (não é um termo muito correto, aqui, mas ajuda o entendimento) ainda lida com o fato de que muitas vezes é vista como um elemento disruptor daquela relação antes supostamente tradicional. O homem menciona que as pessoas não discutem mais com ele porque o que apresenta são fatos, uma vida real, e essa é exatamente a minha postura. Mas a nós, há essa “permissão” de simplesmente falando da coisa quase friamente, estarmos aceitos. Até sermos admirados por isso. A parte maciça do julgamento, infelizmente, não pesa sobre o nosso gênero.

Mas do outro lado da moeda, dentro do estilo de vida poly, já ouvi que para ser realmente o ideal, é preciso que todas as partes da relação sejam bissexuais. Não, aparentemente há uma norma (alienante por si só) que se em uma relação HMH os dois Hs não fizerem sexo, um com o outro, é apenas uma mulher com dois homens e ponto. Pior. Isso denota que em qualquer relação MHM, o H é SIM o machista e “quer só um harém para si.” (como dito, acontece muito, mas nem acredito que mereça ser chamado poly) E se julgamentos endógenos (dentro do próprio meio poliamoroso) também existem, fica claro que não é só uma coisa de que “Julgam porque queriam conseguir o mesmo.”

O quanto, afinal, importa quantos e quais sabores tem a geleia, mais do que o paladar de quem vai comer a torrada? Zeus nos livre de parar pra pensar em quanta coisa, quando crianças, colocamos na boca que se denominavam tutti-frutti, não é mesmo?

polyamory-is-hard

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