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Café e Tapas

Cafeína kink para leitores incautos

mês

julho 2015

Entre o Preto e o Branco

Machismo. A palavra me incomoda um bocado e por diversos motivos. Já correndo o risco de irritar quem me leia, aqui, o principal deles é a facilidade com que ela é usada para justificar argumentos nem sempre tão “preto no branco”, assim. Mas somos uma sociedade maniqueísta, que gosta de polarizar questões, dessa forma, e com isso cobrar que uma pessoa (e TODA pessoa, aliás) esteja deste ou daquele lado. O fato é que não existem apenas dois lados. Toda questão social tem seus 2, 20, 50, 250 tons… os infinitos pontos da reta. E o quê isso tem a ver com o livro “50 Tons de Cinza”? Bem pouco, em não ser uma narrativa nada sutil, mas muito em contar uma história pra lá de machista.

Quem sou eu? Aqui e para este texto, eu sou Mestre Addam, um fetiche que descobri cedo, na minha vida sexual. Sim, ser esta persona é um fetiche meu, e dos mais prazerosos. Dominador, torturador sádico e mentor no uso de agulhas e facas em práticas eróticas. Machista? Sempre me pergunto isso e acho que não é algo que eu consiga responder, mas gosto de pensar que não. Que em toda mulher que já veio a mim para cenas e/ou relações sadomasoquistas havia o desejo consciente desse mesmo fetiche. Me apóio em um dos preceitos da prática de Bondage, Dominação e Sadomasoquismo (BDSM), de que o divisor de águas entre o fetiche e a violência doméstica é que toda prática seja Sã, Segura e Consensual. (SSC) O problema é que, como em meu primeiro parágrafo, são conceitos abstratos o suficiente para também entrarem na dança de que mero “’ser’ ou ‘não ser’” pode falhar em definir certo e errado: SSC ou não-SSC?

Sob esse ponto de vista, o título do livro vem então cheio de promessas, certo? São pelo menos 50 tons da coisa, que veremos em nuances delicadas, enquanto nos deixamos envolver por esses tantos desejos, sabores, sensações. Críticos e fãs dizem que é uma obra que vem desnudar e escancarar os segredos de toda mulher, com suas fantasias. Mas se for acreditar nisso, é ainda mais preocupante.

Temos uma protagonista, jovem adulta chamada Anastasia (pelo simples motivo que os editores disseram à autora que ela não poderia publicar como no texto original, em que ela se chamava Bela), que na realidade só é maior de idade em seu RG, mas com a clara mentalidade de adolescente deslumbrada de 16 anos. Ela é uma mulher certa de suas convicções. Do outro lado, Christian Grey (que, da mesma forma, os editores deixaram claro não podia mais se chamar Edward) é um homem bonito, com aquele desdém altivo que uma adolescente de 16 anos acha o máximo em seus ícones pop e, muito importante à trama, rico. No entanto, Christian é parte de uma subcultura perigosa – e atraente – de sadomasoquistas (porque os editores nem precisaram dizer que a autora precisava mudar a parte “vampiros”, da coisa).

Sim, o texto surgiu como uma fanfic erótica de Crepúsculo, mas essa não é sua pior característica. Releia o parágrafo anterior e você verá que eu coloquei a importância da riqueza do galã acima de sua característica fetichista. Ana, a protagonista de fortes princípios e toda sua certeza adolescente do que quer da vida, claramente rejeita os fetiches de seu “príncipe encantado”. A princípio. Mas Christian sabe bem ‘comprar’ a consensualidade da parceira, ao longo de uma história que nem tenta esconder seus tons (!!!) de material girl – Madonna, excelente para a trilha sonora do filme, hein! –, demorando-se em detalhar e descrever marcas e patentes de todos os presentes que a aos-poucos-submissa Ana vai ganhando de seu cada-vez-mais-Mestre Grey.

Méritos? Vários, no entanto. O livro sucede bem em trazer à luz práticas tão tabus quanto interessantes, ainda que claramente não seja essa sua intenção. A aceitação do fetiche é talvez seu maior ganho, ainda que (ao menos o primeiro volume) encoste apenas na casca de uma gama de práticas possíveis. Resume BDSM a bem pouco, sem deixar sombras o suficiente para que leitores vislumbrem o universo de outras possibilidades, em sua própria imaginação. Apresenta a ritualística por trás da relação Dominador/submisso (D/s), um interessante movimento de tentar ordenar o caos de sensações e desejos que envolvem a interação entre Top e bottom (termos genéricos, facilitando a identificação de papéis sem distinção de gênero, das partes), presente na forma de um contrato entre as duas personagens – o qual Ana recusa-se a assinar, claro.

Em relações D/s, a questão contratual é importante no sentido em que não há consensualidade sem que ambas as partes possam estabelecer seus limites – bem como a disponibilidade a testá-los ou estendê-los. Não é algo que necessariamente esteja colocado em papel e tinta (embora possa ser parte da diversão, estar), mas cabe ao Top explorar essas barreiras e dar ao bottom a segurança de que serão respeitadas. A existência de uma palavra (ou gesto) de segurança, estabelecida como “freio de mão” a qualquer cena ou prática é normalmente o que mantém essa noção do ato consensual, não importa o fetiche sendo explorado.

Portanto, é quase correto dizer que “o poder está nas mãos da submissa”. Uma premissa muito lógica, com todo o exposto aqui, e uma percepção que o livro arremessa janela afora, com a “consensualidade comprada” de Anastasia. Sua submissão física e psicológica a seu Dono está claramente condicionada ao deslumbre causado pela condição financeira do mesmo e a uma horrível ligação disso com a noção romântica de amor. Críticos da obra dizem que o problema do livro está em uma mulher ceder a posição de igualdade com seu parceiro, na cama. Digo que é bem pior, em que ela cede a sutil superioridade que as fantasias de uma submissa têm sobre os desejos últimos de seu Mestre.

Não defendo aqui que o Top seja estritamente dominado pelos limites de um bottom, mas que é o seu maior desafio moldar sensações e desejos da pessoa submetida aos seus prazeres, criando a sensação da perda de liberdade. Seja usando de vendas, algemas e mordaças ou da vigilância quase opressiva de um olho de poder foucaultiano. (em um aspecto bem mais psicológico do ato da dominação) É delicioso – e me permito o deslize analítico, aqui, por que é mesmo! – ver o comportamento e a postura da pessoa dominada ir mudando, à mera presença de uma figura que lhe chega cheia de regras, vontades e exigências, sem que essa sequer pronuncie a primeira palavra. Mas por que isso é parte de um fetiche, um contrato entre os dois. Qualquer dependência inerente a essa relação precisa estar ligada à adrenalina, ao prazer, ao desejo (até mesmo da dor), à afinidade entre as partes.

No primeiro volume da trilogia de 50 Tons, o contrato toma tons de negócios, meramente. Grey com seu dinheiro (e todo o glamour que ele traz), Ana com seu amor. Condicionar o fetiche a qualquer dessas duas coisas é, para mim, o principal desserviço do livro a seus leitores. Ver surgir, em meio aos seus fãs, frases como “sem amor e romance, BDSM não passa de violência doméstica”. Não é preciso haver amor, para que haja o sentimento (mesmo meramente teatral) de posse, mas, principalmente, não é preciso haver posse para que haja amor. O fetiche da posse do outro, a excitação sexual com esse pertencimento, é até muito mais saudável que a assumpção formal dessa mesma posse por causa de qualquer papel assinado em cartório.

Sinceramente, falho em ver qualquer tom de são, seguro ou consensual em muitos casamentos e relacionamentos tradicionais, por aí. Mas ir além de apenas 2 ou mesmo de 50 tons da coisa pode mostrar toda uma dissonância (e distância) necessária, entre amor e sexo.

– Texto publicado no blog Biscate Social Clube, em 09/12/2012

Sexo: Direitos e deveres

Direitos
– Fazer o que quiser (vide cláusula “deveres”, abaixo) com o seu corpo no de outra(s) pessoa(s), independente de gênero, religião ou “o que vão pensar”;
– Comunicar ao(s) outro(s) seus anseios e desejos, seja por gemidos, suspiros, gritos, gestos, olhares, tremores… ou até mesmo palavras;
– Ser o sexo mais que apenas a penetração ou mesmo considerá-la desnecessária ao ato;
– Vontades, brincadeiras, fetiches, unhada, mordida, dedada, linguada, tapas, inserção de objetos, puxadas de cabelo (vide cláusula “deveres”, abaixo)… até mesmo penetração, sem julgamentos;
– Quando pelo menos uma das partes for do gênero masculino, não achar que acaba na ejaculação, para nenhum dos envolvidos;
– Beijar onde quiser, como quiser, sempre que quiser, antes, durante e depois, sem “nojinhos” ou tantos pudores o quanto puder deixar de lado (era teu antes de você sair escorrendo/espalhando no outro, ora essa!);
– Gozar, gozar muito, sempre que possível, sem no entanto ter nisso qualquer tipo de obrigação, para nenhuma das partes.

Deveres
– São: prezar pela sanidade física e psicológica de si e do(s) outro(s) (observando as devidas precauções fisiológicas, principalmente);
– Seguro: prezar pela integridade física e psicológica de si e do(s) outro(s) (e aqui, em ressalva, a importância de se observar leis e regulamentos formais quanto a faixas etárias, local do ato e uso de substâncias);
– Consensual: ter e dar ao(s) outro(s) a opção de querer ou não iniciar e/ou MANTER o ato sexual, ao longo toda a sua duração. Direitos (sim, todos os acima) não são, afinal, obrigações. Qualquer dúvida sobre consensualidade, favor consultar referência abaixo:

Elevator action

Momento: algum fim de tarde em julho.

Parei no quarto andar. Observava o relógio lendo notificações do celular.

Desce? Sim, moça. Eu respondia, porque aparentemente a seta do painel era informação fria demais para ser de confiança. Ajeitava as mangas do blazer, ao sentir que as alças da mochila as haviam “encurtado”, antes de sair do escritório. Já dentro do elevador, uma mão incerta fazia menção de buscar algum botão a apertar por meio segundo, antes de desistir. Perguntei se buscava a portaria.

Sim. Eu apertava o “A”, se de Átrio ou Acesso não faço ideia, mas era da portaria. Obrigada… A voz se acanhava e eu sequer tinha tempo de buscar o celular ao bolso, pra disfarçar que notara o desconforto. O quê significam “S1” e “S2”? Respondia que era pra garagem, sem me delongar em falar de Subsolo, por que agora estava me ocupando em notar a pessoa.

A pele bem morena, os cabelos negros e compridos, descendo em ondas até emoldurarem um decote interessante, não vulgar, numa blusa de um azul bem escuro. Os olhos verdes e lábios cheios, o quão naturais o batom claro sem brilho os permitia serem. Uma beleza mais interessante do que convencional. As calças de um azul bem mais forte, como de caneta. Era justo, já que desenhavam belas pernas e quadris largos. Saltos baixos, discretos, negros.

Que bom que você tava aqui, ou eu me perderia… Ah, arrisca perder-se bem mais, moça! Não faz ideia. Aceita ir comigo tomar um café? Fica aqui até o misterioso “S2”, vamos. Conheço um lugar ótimo, perto. De carro, nem 3 minutos. Toma, meu cartão. Um louco perigoso não te daria o cartão de visitas. Quê me diz, então? É só um café… ainda que teu tipo físico seja ótimo para cordas. Mas a gente conversa isso melhor. Vamos? Se estiver ocupada, anota meu telefone. Não tenho caneta. Me dá o teu aqui, anoto no celular. Mas se não estiver ocupada…

Foi sorte mesmo eu estar aqui. Mais sorte ainda você entrar. Mas tchau, moça. Chegamos no “A”. Boa noite. E me olha até que a porta do elevador fecha. Olho naqueles olhos verdes e sorrio.

… sem camisinhas à mão, moça.

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